Caderno proibido- Alba de Céspedes

Publicado originalmente em 1952, Caderno proibido, de Alba de Céspedes, permanece como um romance de atualidade inquietante. À primeira vista, a história é simples, Valeria Cossati, uma mulher de classe média na Roma do pós-guerra, compra impulsivamente um caderno, um objeto cuja venda era proibida naquele domingo, e passa a registrar nele seus pensamentos. O gesto parece banal, porém logo se revela um território perigoso, é ali que Valeria começa a enxergar a própria vida com uma lucidez até então evitada.

O que emerge das páginas não é apenas o retrato de uma mulher dos anos 1950, mas uma reflexão mais ampla sobre identidade e pertencimento. A escrita funciona como um espelho impiedoso: nenhuma vida resiste incólume quando observada com atenção contínua. Valeria percebe que cuidar de todos teve como contrapartida um lento apagamento de si, cada frase anotada parece corroer a estabilidade doméstica que, por tanto tempo, lhe serviu de abrigo.

Nesse sentido, o romance dialoga com a ideia de Virginia Woolf sobre a necessidade de “um teto todo seu”. Valeria não ambiciona ser escritora, mas intui que precisa de um espaço, físico e simbólico, onde possa existir para além das expectativas familiares. O fato de ter de esconder o caderno “por isso, é absolutamente necessário que eu confesse a Michele e aos meninos a existência deste diário e afirme meu direito de me fechar num aposento para escrever quando tiver vontade” evidencia o quanto sua interioridade não encontra lugar na vida cotidiana.

Outro aspecto marcante do livro é o choque entre gerações, especialmente na relação com a filha Mirella. Enquanto a mãe foi moldada por normas rígidas, a jovem ensaia uma liberdade que ao mesmo tempo fascina e ameaça. “Sinto tudo em mim confusamente e não posso falar disso com minha mãe nem com minha filha, porque nenhuma delas compreenderia. Pertencem a dois mundos diferentes: um que acabou, junto com aquele tempo, e o outro que nasceu dele. E em mim esses dois mundos colidem, fazendo-me gemer. Talvez seja por isso que muitas vezes me sinto desprovida de consistência. Talvez eu seja somente essa passagem, essa colisão”.

A aparição de outras figuras femininas, como a amiga Clara, divorciada e profissionalmente independente, amplia essa tensão ao sugerir outras vidas possíveis, embora também carregadas de incertezas. A autora evita qualquer simplificação, não há modelo de felicidade garantida, apenas escolhas que exigem coragem, seja para partir, seja para permanecer. Essa mesma coragem atravessa tantas obras da literatura, basta lembrar a cena de As pontes de Madison adaptada para o cinema, em que a mão hesita sobre a maçaneta, um instante suspenso entre ir ou ficar.  

Caderno proibido fala daquilo que raramente envelhece, o conflito entre quem somos e quem nos permitimos ser. Ler este romance é aceitar o risco de também se olhar com mais atenção, e talvez descobrir que toda vida, quando narrada com honestidade, guarda sua própria forma de vertigem. Por isso o trecho que mais gostei foi esse: “… quando comecei a escrever, acreditava haver chegado ao ponto no qual se tiram as conclusões da própria vida. Mas toda experiência minha me ensina que a vida inteira passa na angustiante tentativa de tirar conclusões e não conseguir.”

Beijos, Magda Medeiros

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