“Para dentro do homem o homem caía.”
Em vários momentos deste livro, o autor usa essa expressão para nos conduzir aos muitos ensimesmamentos e reflexões em que seus personagens se detêm. Vamos, então, sentindo as nuances de suas dores, expostas de maneira lírica, e nos enternecemos com a imensa necessidade de afeto que atravessa cada um deles.
Crisóstomo, por exemplo, abraça um boneco de pano com um sorriso feito de botões vermelhos e começa a imaginar que os filhos, às vezes, se perdem na confusão do caminho. Pensa em crianças sozinhas, como filhos à espera. Crianças que parecem demorar a voltar para casa porque foram enganadas pela vida. É quando ele acredita que o afeto verdadeiro é o único desengano, a grande forma de encontro e de pertença, a grande forma de família.
É essa a ideia que permeia toda a obra: laços inesperados que transformam estranhos em família. Lembrei novamente de uma entrevista da Rosa Montero, em conversa com Ricardo Viel, no livro Sobre a ficção: ao longo do caminho, os personagens acabam criando uma espécie de “parafamília”, algo essencial para a sua salvação.
Outro aspecto que me marcou foi a singeleza, quase uma ingenuidade, de Crisóstomo, o seu jeito de acreditar nas pessoas, de esperar delas o melhor, de não julgar, e também de fazer as coisas no seu tempo. Há nele uma delicadeza no olhar. Para mim, foi um verdadeiro lenitivo encontrar um personagem assim. Fiquei pensando em como o mundo seria diferente se mais Crisóstomos o embelezassem com a ternura de seu olhar. Talvez pudessem oferecer a alguém, como ao menino Camilo, alguns momentos como este: “Apagou a luz para sorrir com o tamanho sempre infinito da escuridão. Também ele tinha um tamanho cada vez mais infinito. E não caía. Sentia que se levantava.”
O livro também nos apresenta as durezas da vida. A anã, aceita enquanto objeto de piedade, mas não como alguém digno de amor. Isaura, que perde valor para a família e vizinhança por ter sido usada e abandonada. Antonino, chamado de maricas pelos outros, cuja maneira de ser e de se mover o torna alvo constante de preconceito. São personagens que nos fazem sofrer com eles. Ainda assim, a beleza com que o autor ilumina esses cotidianos nos convida a um gesto silencioso de consciência. Reconhecemo-nos ao lado de cada um deles quando lemos: “Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.”
Entre tantas frases marcantes, uma ficou comigo como um rastro de ternura de Crisóstomo:
“Ser o que se pode é a felicidade.”
Deixo-a com você. Como uma lembrança simples e necessária: há uma beleza profunda em sermos, com honestidade, aquilo que podemos ser.
Beijo afetuoso,
Magda Medeiros