Pequena coreografia do adeus- Aline Bei

Pequena coreografia do adeus é um romance que não se constrói por grandes acontecimentos, mas por fraturas. Fraturas emocionais, afetivas, familiares, aquelas que não fazem barulho, mas moldam uma vida inteira. Aline Bei cria a narrativa em uma prosa poética fragmentada, marcada por versos livres, cortes abruptos, silêncios e imagens simbólicas, não há linearidade tradicional, nem capítulos convencionais no sentido clássico. Acompanhamos Júlia desde a infância, em um lar atravessado por conflitos, silêncios e ausências. O divórcio dos pais não representa apenas a ruptura de um casamento, mas o colapso de qualquer noção de segurança: Júlia cresce com a sensação persistente de não pertencer, de ser excesso, de não caber plenamente nem na vida da mãe, nem na do pai.

“aos poucos fui percebendo
que nenhuma relação que eu estabelecesse no futuro
viria sem esta conta
da quebra
da inocência, quando as pessoas se casam elas não ficam juntas para todo o sempre?
então não há segurança
com nada e com ninguém?”

A mãe, endurecida por frustrações e dores mal elaboradas, transforma a criação da filha em rigidez e violência. O pai, por sua vez, se afasta, absorvido pela própria liberdade recém-conquistada, ocupando o lugar do afeto episódico, presente em pequenos gestos, ausente no que realmente sustenta.

“me sentia um verdadeiro Pêndulo: ora caminhando
solenemente para a presença materna, ora fugindo
de qualquer possibilidade de mãe.
ora correndo
para o pequeno afeto que o meu pai me dava
ora odiando o fato
de tê-lo
em casa, fechando os olhos
toda vez que ele se aproximava de mim.”

Porém, a autora não nos apresenta vilões fáceis, todos os personagens são atravessados por suas próprias limitações, dores e fracassos. A violência, o abandono e a negligência não aparecem como atos isolados, mas como repetições de ciclos emocionais não elaborados. Há, nisso, uma dimensão profundamente humana, pessoas machucadas machucam, mesmo quando não desejam.

A escrita surge como refúgio e como linguagem de sobrevivência para Júlia. Ainda criança, começa a registrar suas dores em um diário, transformando o que não consegue dizer em palavras escritas, o gesto de escrever se torna uma forma de organizar o caos, de nomear sentimentos contraditórios, de dar contorno ao que é excesso por dentro. Já adulta, essa necessidade se transforma em criação literária, Júlia escreve um livro dentro do livro, criando uma narrativa paralela que dialoga com sua própria história.

É um romance sobre formação subjetiva, de como uma identidade se constrói a partir de perdas, ausências e tentativas de pertencimento, o adeus do título não é apenas às pessoas, mas a versões antigas de si mesma. Transforma dor em linguagem, e linguagem em reconhecimento, e por isso o trecho que mais gostei foi esse:

“desde quando sabemos de todas as coisas que acontecem no mundo se mal sabemos o que se passa no fundo do nosso coração?”

Beijos, Magda Medeiros

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