As fronteiras de Oline- Rafael Zoehler

“É preciso correr o máximo que você pode para permanecer no mesmo lugar.”

No trecho de Alice Através do Espelho, Alice corre muito rápido ao lado da Rainha Vermelha, mas percebe, confusa, que nada ao redor muda, as coisas continuam no mesmo lugar. Exausta, ela questiona a Rainha, que explica: naquele mundo, é preciso correr ao máximo apenas para permanecer onde se está.

No romance de Rafael Zoehler, o Senhor Oline é um guarda de uma fronteira ficcional entre a Sérvia e o Cazaquistão e dedica sua vida a manter separações, tentando preservar tudo exatamente como está. Ele também está correndo, como a Rainha Vermelha, sem sair do lugar. Sua dedicação absoluta ao trabalho, sua obsessão por manter as fronteiras intactas, seu zelo pelo uniforme e pelo bigode, tudo isso para que nada mude. Para que lá continue sendo lá e aqui continue sendo aqui, porque “esta é a minha fronteira”.

Há também uma camada mais sutil: o cansaço. Alice sente que não consegue correr mais rápido, mas não consegue nem dizer isso. Oline, de certa forma, também vive esse esgotamento silencioso. Sua vida é tão rigidamente estruturada que não há espaço para questionamento. Até que algo desloca esse equilíbrio.

A partir daí, o romance se expande em uma espécie de epopeia às avessas. Oline percorre um mundo que parece uma versão levemente desalinhada do nosso.

Nesse movimento, ele se aproxima de algo que nunca conheceu: a possibilidade de imaginar, de desejar, de existir para além da função que herdou. A figura do pai, central na narrativa, surge como origem e limite, uma herança que molda, mas também aprisiona. Libertar-se dessa herança não significa negá-la, e sim ressignificá-la, o que confere ao romance uma camada sensível sobre paternidade, pertencimento e identidade.

A escrita de Zoehler é marcada por uma leveza que não exclui profundidade. Há humor, há delicadeza, e há momentos de suspensão quase poética, como no episódio do Tanabata, em que Oline, diante da possibilidade de formular um desejo, opta por deixar o papel em branco. Talvez comece a intuir a vastidão do mundo, mas ainda não sabe nomeá-la.

O romance é uma fábula sobre deslocamento geográfico, emocional e existencial. E por isso o trecho que mais gostei foi esse: “Era quase dia quando o Senhor Oline se levantou e olhou para o espelho onde pisava. De mãos vazias, encarou a derrota. Voltava sem nada. E ali percebeu que era possível estar perdido mesmo sabendo exatamente onde pisava”.

Beijos,

Magda Medeiros

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