Se eu soubesse contar infinitos- Mayra S. Mayor

“Demorei a entender que a vida é só uma sequência de voos, deslizes, perfumes, apoteoses. Uma sequência de hojes.”

Fechei este livro com a sensação de ter encontrado um daqueles cadernos esquecidos em uma gaveta, preenchidos por diferentes mãos, em épocas distintas, falando da mesma busca: a tentativa de entender a vida. Ler Se eu soubesse contar infinitos, de Mayra S. Mayor, é acompanhar não apenas a trajetória de três mulheres, mas o modo como o amor, os silêncios e as escolhas deixam marcas que nem sempre percebemos enquanto estamos vivendo.

Ao longo de quase cinco décadas, conhecemos Tereza, Alice e Carolina. Avó, filha e neta, três mulheres muito diferentes entre si. Como acontece na vida, não existem explicações simples nem culpados fáceis. Existem pessoas tentando seguir adiante com aquilo que receberam. E com aquilo que lhes faltou.

Um dos aspectos mais interessantes do romance é justamente a construção dessas personagens. Em diferentes momentos, senti admiração, impaciência, compaixão e até discordância diante de suas escolhas. Mayra S. Mayor não cria protagonistas idealizadas. Suas personagens são contraditórias, falham, insistem em caminhos difíceis e, por vezes, não conseguem oferecer aos outros tudo aquilo que gostariam. Essa complexidade faz com que pareçam menos personagens e mais pessoas reais, daquelas que poderíamos encontrar em qualquer família.

A escrita é fluida e envolvente, conduzindo a leitura com naturalidade mesmo quando a narrativa percorre diferentes tempos e perspectivas. A história vai e volta no tempo, e, junto com suas reviravoltas, nos entrega também um retrato de diferentes momentos da história recente do Brasil. O romance dialoga com a tradição das sagas familiares centradas em mulheres e, com delicadeza, transforma reflexões sobre maternidade e pertencimento em algo íntimo, sem perder de vista os acontecimentos que moldam cada época.

Gostei especialmente da maneira como a autora explora as relações entre mães e filhas. O romance parece perguntar, o tempo todo, onde termina a história de uma mulher e onde começa a da outra, e se essa fronteira realmente existe. O que carregamos de nossas mães? O que repetimos sem perceber? O que conseguimos transformar? São questões que percorrem o livro de forma sutil e persistente. Nesse sentido, o caderno escrito a quatro mãos por Tereza e Carolina é um recurso muito bonito na obra. Suas reflexões surgem como pequenas pausas entre os acontecimentos, lembrando que viver talvez seja justamente isso: seguir adiante enquanto tentamos compreender o significado do que nos acontece.

Se eu pudesse deixar uma anotação no caderno de Tereza e Carolina, escreveria: “Nenhuma vida começa do zero. Chegamos ao mundo no meio de histórias que começaram antes de nós.”

Se eu soubesse contar infinitos é um romance sobre o tempo, perdas e recomeços. É por vezes dolorido e nos toca justamente pelas imperfeições nos vínculos humanos, por isso o trecho que mais gostei é este: “Dizem que uma existência se define pelos amores que cada um vive. Já eu acredito que um caráter se molda a partir dos abandonos que se sofre, e pelos que se comete. Todos abandonamos, todos somos abandonados. Não é exclusividade, nem privilégio. É simplesmente humano”.

Beijos,

Magda Medeiros

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