O dia do curinga- Jostein Gaarder

Uma outra obra deste autor, O mundo de Sofia, permaneceu comigo por muito tempo após a leitura, tanto por trazer a filosofia de uma maneira mais próxima para quem, como eu, não possui um arcabouço teórico para compreendê-la, quanto pelas amarrações bem construídas de sua narrativa. Em O dia do curinga, me vejo novamente em meio a questões filosóficas e a um enredo de idas e vindas.

Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de Hans-Thomas, um garoto de doze anos que atravessa a Europa ao lado do pai em busca da mãe, que abandonou a família anos antes para seguir a carreira de modelo na Grécia. Porém, há uma história dentro da história: um livrinho tão pequeno que precisa ser lido com uma lupa. Enquanto Hans percorre estradas europeias ao lado do pai, também mergulha na narrativa fantástica de um marinheiro náufrago que encontra uma ilha habitada por cartas de baralho que ganharam vida.

A estrutura de “livro dentro do livro” é um dos grandes méritos da obra. As duas tramas se entrelaçam progressivamente, criando um jogo de espelhos entre fantasia e realidade. Aos poucos, o leitor começa a notar aproximações entre os acontecimentos da ilha misteriosa e a vida de Hans-Thomas, transformando a leitura em uma investigação sobre identidade, destino e pertencimento.

Nesse aspecto, O Dia do Curinga me lembrou o filme As Aventuras de Pi: as duas ilhas funcionam como espaços liminares, situados entre a realidade e o imaginário, entre o conhecimento e a ilusão. Assim como Pi Patel encontra um lugar que desafia a lógica após sobreviver a um naufrágio, o marinheiro da narrativa paralela desembarca em uma ilha onde as regras da realidade parecem suspensas. Mais importante do que descobrir se os acontecimentos fantásticos ocorreram de fato é perceber que a realidade pode ser tão instável quanto as histórias que contamos para explicá-la. As duas obras sugerem que aquilo que chamamos de realidade talvez seja apenas o melhor relato que conseguimos construir sobre o mundo.

Para mim, tanto O Dia do Curinga quanto As Aventuras de Pi parecem ter sido escritos para leitores que, mesmo sem formação filosófica, possuem aquilo que talvez seja a principal porta de entrada para a filosofia: a curiosidade, esse incômodo diante das grandes perguntas da existência.

Nunca estudei Platão, mas esta obra me fez lembrar da alegoria da caverna. Nela, pessoas tomam sombras por realidade até que uma delas consegue enxergar o mundo para além das aparências. A metáfora dialoga diretamente com a história de Hans-Thomas, que aprende a desconfiar das explicações prontas e a olhar para o mundo com espanto e curiosidade. E talvez seja esse o ponto que une Hans-Thomas, Pi Patel e o prisioneiro que deixa a caverna: todos iniciam sua jornada quando deixam de aceitar o mundo como algo óbvio.

Há um trecho do livro que resume esse sentimento: “Vivemos nossas vidas num incrível mundo de aventuras, pensei. Apesar disso, a grande maioria das pessoas considera tudo isso ‘normal’. Em compensação, vivem em busca de algo fora do normal: anjos ou então marcianos. E isso se explica pelo simples fato de que elas não consideram um enigma o mundo em que vivem. Para mim a coisa era completamente diferente. Para mim, o mundo era um sonho muito estranho, e eu vivia em busca de uma explicação racional qualquer para esse sonho.”

Será que ainda sabemos olhar para o mundo com surpresa?

É justamente esse convite ao espanto, à recusa de aceitar o mundo como algo comum, que faz de O Dia do Curinga uma leitura que continua atual.

Beijos,

Magda Medeiros

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