O que significa escrever uma história quando a pessoa que conta é justamente a pessoa menos capaz de compreendê-la?
Paulo Honório, o personagem central e narrador de São Bernardo, quer contar a vida do seu jeito. Logo no início do romance ele dita as cartas: “Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais”. Assim, um ficaria com a moral, outro com a gramática, outro com a tipografia… e ele ficaria com o quê? A resposta vem em seguida: ele traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e, claro, poria o seu nome na capa. É uma cena engraçada, mas também diz muito sobre ele.
Paulo Honório transforma tudo em propriedade. Terras, dinheiro, trabalho, pessoas. E, de certo modo, tenta transformar a própria narrativa em propriedade também: é a história dele, contada por ele, nos termos dele. Só que não funciona.
Ele acredita que escrever lhe permitiria organizar o passado e, talvez, compreender o que aconteceu. Mas a escrita produz o efeito contrário; quanto mais tenta controlar sua narrativa, mais ela revela aquilo que ele não consegue controlar em si mesmo. Há uma ironia quase cruel nisso. Paulo Honório passou a vida dominando pessoas e circunstâncias. Quando finalmente se senta diante de uma página, descobre que não consegue dominar a própria memória.
Sua escrita é coerente com sua maneira de existir. Ele quer objetividade, utilidade, economia. Desconfia das palavras que considera inúteis. E Graciliano constrói a linguagem do romance a partir dessa mesma secura, como se Paulo Honório não apenas contasse a história, mas tentasse impor à linguagem a mesma ordem brutal que impôs ao mundo.
Para mim, uma das forças do livro está justamente na distância entre ter palavras e conseguir se comunicar. Paulo Honório aprende a ler na prisão, depois enriquece, conquista terras, dinheiro, poder, autoridade. Aprende a escrever. E, ainda assim, não sabe alcançar o outro. Ele possui palavras, mas não possui a capacidade de compreender verdadeiramente Madalena.
Graciliano não precisa nos dizer que Paulo Honório perdeu alguma coisa de sua humanidade. Ele simplesmente o coloca diante de uma página e deixa que ele próprio descubra. Por isso, o trecho que mais gostei é esse: “Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.”
Beijos,