O conto da aia- Margaret Atwood

“Melhor nunca significa melhor pra todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns”.

Este trecho mostra bem o que me vem à cabeça quando me preparo para ler uma distopia: um texto difícil de engolir, em que uma determinada visão quer se impor, independentemente das consequências para os outros. E como uma boa escrita do mundo distópico, O conto da aia não deixa a desejar. Muitas vezes precisei parar a leitura, com vontade de dizer à Offred, não vá por este caminho, você está entrando na loucura deles.

O Conto da aia nos apresenta uma sociedade em que o controle sobre o corpo, a sexualidade e a própria identidade das mulheres é levado ao extremo. Na República de Gilead, as mulheres perdem direitos fundamentais e são reduzidas a funções determinadas pelo regime. Nesse contexto, a protagonista, Offred, vive como aia na casa de um Comandante, obrigada a participar de um sistema de reprodução imposto pelo Estado. Com um relato em primeira pessoa, Offred coloca o leitor dentro dessa nova realidade, acompanhando com ela o seu dia a dia. Entre relatos do seu presente em Gilead e lembranças de seu passado, sua família e amigos, vamos compreendendo as mudanças que aconteceram na sociedade.

Por mais que a leitura absorva e conduza àquele universo, algumas vezes parei e fiquei procurando sinais de um posicionamento reflexivo da narradora, ou seja, de que lugar ela escreveu este relato. Como um diário? Para mim, Offred demonstra um certo distanciamento ao olhar para trás e analisar o próprio processo de desumanização. Ela consegue admitir a sua passividade porque entende, em retrospecto, como o regime quebrou a sua vontade. Offred não está tentando parecer uma heroína para a história. Para mim, ela está também depondo sobre o que o totalitarismo pode fazer com a mente humana. Narrar a sua própria aceitação, o medo e os momentos em que ela simplesmente se conformou para sobreviver é uma forma de honestidade brutal sobre o trauma. A submissão não foi uma escolha, mas uma consequência psicológica da perda absoluta de liberdade. Essa perda começa de forma abrupta: Offred deixa de ter acesso à sua conta bancária, ao seu emprego e à própria autonomia. A intervenção do sistema em sua vida pessoal vai se tornando cada vez mais profunda, até que a privação da liberdade passa a parecer parte do cotidiano. Neste sentido, um trecho que me marcou foi: “O costumeiro, dizia tia Lydia, é aquilo a que vocês estão habituadas. Isso pode não parecer costumeiro para vocês agora, mas depois de algum tempo será. Irá se tornar costumeiro”.

E então, quando você pensa que acabou, surge um epílogo com tom de narração acadêmica. Offred deixa de ser “eu” e passa a ser “a aia”. É perturbador ver que o principal interesse daquelas pessoas é descobrir quem era o Comandante, quem era Offred, se a gravação das fitas que foram transcritas e originaram o livro é autêntica, etc. Há uma distância quase burocrática em relação ao sofrimento que acabamos de testemunhar. Isso se deve à mudança cronológica e situacional, já que o epílogo é a transcrição de um simpósio anos depois, em 2195, em uma universidade no Ártico, ou a um toque de genialidade da escritora, para nos conduzir a novas reflexões?

Beijos,

Magda Medeiros

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